Códigos

Saudade começa com a letra do teu nome
Quando eu subverto a língua,
Ou quando lembro de você.
Tivemos momentos, lembra? Manhãs e noites
E segredos,
E tardes longas de espera
Em que você nunca apareceu.

Mas tudo bem, mesmo assim, mesmo em silêncio,
Eu continuo fascinado pelo fogo dos teus olhos
E cabelos, e que arde em tua pele.
Eu ainda me vejo sussurrando teu nome,
E ainda escrevo poemas, mas a maioria nasce morta
E eu os escondo: se você não os lê,
Eles serão meus, só meus,
E eu os lerei
E eles me levarão para ti…

Saudade começa com a tua letra,
Teu riso louco e caudaloso, gostoso,
Com teu jeito felino-feminino de não precisar de mim
Ou de ninguém.

Saudade começa com meu olhar te vendo ao longe
E minha mania insana de querer te ver
Desabrochar

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Nas paredes da vida

Fez-se o tempo ontem, hoje já não mais.
Não corro atrás, apenas morro a cada dia,
Um calendário feito de carne e sangue,
As lembranças arrancadas como páginas
Ao vento selvagem.

Preso na parede da rotina, sopra o vento
Eu me levanto e sigo, um autômato,
Um ex-adolescente totalmente curado,
A rebeldia escondida sob séculos
De fazer o que é preciso.

O que eu preciso?

Sobe a noite, descem as estrelas,
Acordo, durmo, caio e levanto,
Cristalizo mas estou opaco:
Cada dia mais cheio de verdades,
Cada hora mais cheio de certezas.

Ora, vejam.

Eu arrancava as máscaras
Com pele e sangue! Eu gritava e rasgava meus versos
Pelos muros da cidade, eu cantava alto,
Falava sozinho sangrando pela estrada,
o coração na mão e espinhos no peito,
Cheio de sonhos para contar…

Mesmo sendo a morte o destino final,
Por favor, por favor,
Não se deixe morrer antes que desça o pano.
Lute, chute, grite,
Não tenha vergonha.
Não se deixe exibir feito um quadro lindo
Quando você pode ficar torto
Nas paredes da vida.

*Imagem: Close to Pablo Picasso, by Max Braun

Há dias

Há dias e há dias.
Ah, dias…
Daqueles em que você acorda com os corvos revoando no peito,
“nunca mais, nunca mais”, grasnam eles,
Entupindo veias, artérias, alvéolos e as estradas de terra
Que conduzem às lembranças mornas dos dias livres do passado.

Há manhãs em que nada faz sentido,
E você segue no automático, uma casca errante,
Seguindo a agenda e ticando itens
Como se fosse um velho catando e contando moedas
Enquanto o relógio da morte tiquetaqueia cada vez mais perto
Mais
Perto
Mais
Perto
Mais

Há tardes quentes, de quase desistir. Há, não há?
Daquelas em que você se arrasta tal qual o suor sobre a pele,
E os medos que arranham sob ela tomam forma,
Sombra sólida, vazio insone
Faminto de tudo o que ilumina…

E a noite chega,
Promessas rompidas de um descanso fugaz
Que nunca chega.
A pressão dos compromissos pesando sobre o peito,
A conferência dos comprimidos nas gavetas,
A saúde medida em gramas e porções…

O que é a vida? Onde entram nesse carrossel quebrado
A música, a justiça, a verdade, a beleza?
Onde foi parar a paz, onde anda minha fortaleza?
Por que me sinto em cacos, partido em tantas facetas?
Onde cabem o amor, a pureza, o perdão?

Não sei.

Há dias
Em que só as perguntas te cobrem:
Jornais finos e frios
Na noite eterna do sono sem sonhos
Da vida que escolhemos…

Isto também não é uma carta

Espera, não fecha o livro ainda.
Deixa a janela aberta, pois o vento quer entrar.
Quantas vezes eu te disse, em silêncio,
Que tua beleza é demais para caber em um só olhar?

Se eu me calo é pela incerteza, não pelo silêncio.
Se me afasto, bem… a flor mais bonita
É a que cresce sem os cuidados do jardineiro –
Desculpem a arrogância.

É tarde, lá fora a luz do sol brilha e aquece,
Como tu fazes com meu coração quando conversamos.
Ah, como me fazes bem com tuas jovens palavras!
Como sinto-me tranquilo quando sei que tu, e apenas tu
Consegues me ler como ninguém!

Não tenho a intenção de ser distante,
Nem de parecer orgulhoso. Não.
Só espero, como quem namora as nuvens pesadas,
Pela chuva que irriga o sertão do meu peito.
Daí, às vezes, chove
E eu fico ali, ouvindo o barulho no telhado,
Sentindo o cheiro de terra molhada,
Sonhando acordado com o inverno dos teus cabelos.

Isso não é uma resposta, meu bem.
Eu apenas me encantei com tua cor hoje de manhã.

Obrigado pela luz que sai de ti.
Continue linda, em cheiros, texturas e sonhos.

O passado é meu, mas o futuro é teu.

Não me importa

Não me importa a palavra corriqueira, simples,
Que sai sem esforço algum da boca.
Vem vazia, vem seca, vem desvestida,
Palavra nua, sem atrativo algum.

Gosto daquelas envoltas em alma,
Pingando paixão. Podem nascer
De um abraço ou um tapa,
Iniciar ou terminar as histórias
Com amor, com culpa, com adeus.

Não me importa a palavra da moda,
Ou a rima perfeita; não.
O que me encanta é a palavra ígnea,
Que brota da terra escura e úmida,
Chia sangue,
Provoca calafrios
E evoca amplidões.

Não me importa a palavra que brilha.
Eu gosto daquela secreta,
Parida,
Chorada,
Sofrida.

É dessa que eu bebo.
É dela que, destilada,
Nasce o meu poema.

O vento

O vento espiralou as folhas e eu caminhei
Sozinho, as ruas como guia, nenhum destino.
Andei como se morresse, infinito e só,
E nada – nem ninguém – me possuiu naquele dia.

Eu não tinha mais desejos, não sabia mais quem era.
Apenas caminhava, a luz morna e amarelada caindo, líquida,
Sobre as coisas. E é verdade:
As pessoas já não olham para nada.

Então eu andei, só andei
Sobre as calçadas, pessoas e celulares e sonhos mortos,
E cada uma era uma ilha.
Entre todos os rochedos, eu, que era a única jangada,
Fluí.

O vento espiralou as folhas e eu segui
Sozinho, a estrada como guia, nenhuma promessa.
Andei como se vivesse, infinito e só,
E nada – nem ninguém – me segurou naquele dia.

Quando a morte vier

Quando a morte vier, vai me apanhar vivo e rindo
Ou dormindo?
Estarei nu ou vestido, sentado sob uma árvore,
Ou olhando o mar com olhos úmidos e salgados?

Direi algo espirituoso? Tremerei?
Ficarei em silêncio, observando seus olhos negros,
Os dedos compridos a agarrar minha mão?

Ela me despirá de minha pele
Ou me jogará num grande vazio?
Receberei uma palavra de consolo
Ou ela apenas rirá de minha covardia
(afinal, não sou o primeiro.)?

Eu não sei.
Até lá, a única certeza que tenho
É que ela virá, e quando vier,
Será só para mim.

Serei jovem, velho e criança, mas serei eu.
Ser único na vida e na morte
É um consolo agridoce
Para quem sempre teve medo de ficar só…

Meu reino

A poeira se assenta tranquila sobre as últimas palavras que dissemos.
Você não parece incomodada, entretanto; parece, como sempre,
Saber de algo que eu não sei. Mas isso não importa, porque
Eu já não quero te impressionar como antes. Não tenho mais o que te dar,
Na verdade, eu quero tomar de você aquela doçura que brotava de nós,
Mas não sei como pedir. Eu já não sei mais…

Lembra de quando éramos jovens, caminhando ou correndo na chuva?
O céu era o bastante para nós, o amanhecer, a terra molhada,
E eu tirava as folhas de teus cabelos, e tu eras tão linda,
Encarnação da Primavera! Teus lábios como maçãs, vermelhos, doces,
Férteis…

Como eu te amava naquelas tardes, como eu te esperava, e meus olhos
Te fotografavam com fidelidade infinita! Como eu me deixei corroer
Pelos teus encantos, e cada mordida era uma prece, e nossos corpos
Desrespeitavam as leis da física, dos deuses e dos homens! Éramos lindos,
Éramos anjos, e caíamos em chamas!

E como brilhava nosso reino, como era belo, todo ouro e marfim!
Mas tinha sombras, como tudo o que brilha, e eram profundas.
E eu deixei de ser teu cavaleiro quando virei rei,
E entendi, depois de tanto tempo,
Porque você quis partir, e eu quis te prender,
E nada que eu fiz adiantou, pois te perder
Era a melhor coisa que podia acontecer para nós.

Meu amor, minha rainha,
Minha maldita erva daninha e suas raízes…

Eu te dei tudo o que você não pediu, e a culpa de eu ser assim nunca foi tua.
Você não precisa, mas eu te perdoo, minha chuva, minhas lágrimas:
Já não reino agora, encolhido na esquina, vestindo trapos;
Já não sou feliz.
Mas agora eu canto, e um dia você passou diante de mim,
E eu me despedi.
A poeira se assentou tranquila sobre as ruínas do meu reino
E eu, finalmente, pude seguir viagem de você.

Cemitério de elefantes

Quantos amores dormem em meu coração,
Tempo, que tens os olhos da Medusa?
Quantas esculturas de sal eu deixei
Somente por olhar para trás?

Que seja justa a punição: o esquecimento
Numa longínqua curva da vida.
Soltar as amarras desgastadas que me prendem ao passado!
Correr, o vento enfunando as velas,
Para longe dessas águas mornas e calmas!

Eu preciso saber! Eu preciso
Entender o que se faz para estender a Vida!
Não quero morrer, ser apenas mais um nome escrito na areia!
Quero a eternidade, e com ela toda a culpa a que tenho direito!

Eu não sei.
Adiante, depois do morro, inicia-se a descida. Não a vejo,
Mas a pressinto, fria, cinza, terrosa,
O pó marrom embaçando a visão e transformando o sangue em barro.

Não foi para isso que caímos rumo à Sombra? Não foi para isso
Que renegamos ao Sol?
Quem me chorará quando eu me for?
Quem não o fará?

Os dias já não são mais meus, eu sinto.

E como eu sinto…

Pequeno som do mar

É encostar no teu peito e ouvir:
Tu és concha, alma e vento.
A cantiga está ali, escuta:
Tens o mar dentro de si.

Ver-te dormir, tocar teu rosto,
Mergulhar na mansidão de teu olhar;
A pele morna, a boca salgada,
Tu és maresia, jangada a partir,
Pedra, erosão, saudade
Incerteza de voltar.

É encostar em teu beijo e sentir:
Tu és sereia, ressaca, oferenda que não volta.
O encanto está ali, escuta:
Tua voz é o pequeno som do mar.