Talvez você não saiba

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Talvez você não saiba
Das coisas infinitas
Que podem caber
Dentro de uma canção,
No vento,
Ou no aroma doce das manhãs.

Não sei se você lembra, mas
Eu te guardei em meu abraço
Como para te proteger,
Ou para te consumir,
Quem sabe para te manter intacta em mim,
Um fóssil, uma fotografia,
Uma memória gravada em praças
Iluminadas pelo sol.

Foram bons dias.
Pude sentir o cheiro de teus cabelos
E o toque macio de tua pele.
Naqueles momentos, minha estrela,
Eu fui infinito.

Ninguém além de mim conhece
A maneira como o vazio, a distância e o silêncio
Se completam em mim.

Fomos poesia um dia,
Eu e tu.

Talvez você não saiba, minha querida
Das coisas infinitas que podem caber
Numa saudade.

*Imagem: Saudade, Almeida Júnior.

A canção do mar

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Ouça a canção do mar e sinta
A maresia a invadir o teu castelo.
Veja as ondas a tecerem suas rendas de espuma
Como se a areia e o sal
Soubessem segredos guardados de séculos atrás

Quantos sábios de coração partido são necessários
Para fazer nascer um oceano?

A brisa sussurra mentiras sobre o pó e o mistério.
Peixes, conchas e horizontes
Traçam a trilha submersa do eterno procurar
Como pode viver ser tão inexprimível?

Respirar:
Fazer de cada pulsação um protesto e uma prece

Enquanto a rotina nos enlaça em sua inércia
O que nos resta?
Se tudo prende e nada faz sentido
Em que silêncios encontrarei a minha resposta?

O vento molda a duna,
O mar modifica a rocha dura e perene.
No fim de tudo,
Apenas a certeza de que a mudança
É a única coisa constante que há

O amanhã que não chega

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O olhar que me domina é o que me prende:
Nuvem solta no céu, rastros de um perfume,
Troca de átomos e estática no contato

Nossa paixão é grama que racha o asfalto.

O desejo é a ilusão da suprema carícia,
Uma que suprisse toda a carência…
No caminho, um sorriso, um toque, um choque:
A paixão fica contida, escondida
Na saudade – um oceano! – onde mora o adeus.

O futuro é a garantia da incerteza.
O tempo? Ilusão compartilhada
Ampulheta-muleta que nos ampara-separa.

Longe de nós mesmos, as lembranças não satisfazem.

O tempo é um deus cruel:
Força-nos a envelhecer
A esquecer
E a esperar
Por um amanhã que não chega.

Para onde vai a noite quando amanhece?

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Nem todo amanhecer é claro.
A maioria das escuridões, porém, é densa e profunda
Como o tempo, que corre, invariavelmente,
Rumo a um fim pessoal e intransferível.

Saber-se finito, nessas horas de frio e penumbra
Passa longe de ser um consolo.
É como cobrir-se de gelo e névoa no inverno,
Ou fechar os olhos dentro de um quarto escuro.

Não há salvação para quem comeu do fruto do conhecimento.
A queda é real, palpável, concreta:
O sono é o treino para o esquecimento,
Despertar é dar corda na roda do mundo.

Amor, verdade, justiça e beleza
São satélites que brilham sem luz própria.
O caminho é escuro e solitário, e a vida
Alimenta-se sem piedade de nossa essência.

Beber para esquecer,
Ouvir música para sedar-se,
Cercar-se de gente e de barulho
Tentando sumir…

O sol nasceu,
Mas a noite ainda dorme
Faminta
Dentro de mim…

Julho

Férias… Felicidade!

Não venha me ver

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Não, não venha me encontrar
Se não for para ficarmos bem.
Se a regra, porém, for a distância fria
Das palavras polidas
É melhor que cada um fique em seu lugar.

Não quero olhar para uma casca vazia cheia de culpa,
Que me enche de arrependimentos com uma expressão cansada e opaca.
Quero o fogo de teu olhar, o cheiro do teu cabelo,
Quero abraçar alguém que reaja a meu toque,
Que me aperte. Afinal, se os abraços
Não servem para nos fazer sentir que existimos,
Para que servem então?

Não, é melhor que você não venha.
Se não podemos superar o que passou,
É melhor que vivamos apenas das lembranças e promessas não ditas.
Sinto muito se te desapontei, mas, ei!,
As coisas também não saíram como eu queria.

Desculpa se pareço raso ou egoísta, meu amor,
Mas eu realmente ando meio cansado de querer
Ser o melhor, dar o melhor, desejar o melhor.
Portanto,
Não venha me ver
Se não for para ficarmos bem.

Uma dor fina

1719

Uma dor fina se espalha
Pelo caminho que você traçou, mas não completou.
Apareceu no horizonte, fez sinal,
Caminhou até meus braços, mas
Não consegui te abraçar.

Parecias uma neblina, sabe?
Mesmo teus olhos estavam enevoados,
E eu sabia que aquela distância era, em parte,
Minha.

Por isso te peço perdão
Assim, de longe, porque sou meio covarde,
E a distância te dá essa falsa sensação de segurança
Para quem não quer ferir ou se ferir.

Uma dor fina se espalha e se dispersa
Feito fumaça, miragem ou encantamento.
Perdão por não poder te abraçar.
Perdão por te procurar
Quando você não estava mais lá.

Perdão por não estar lá
Quando você precisou.

Eu nunca quis te ferir
E por isso, talvez,
Uma dor fina se espalhe…

Canções, cabelos e sonhos vermelhos

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Cachos em chamas de uma vermelhidão brusca, absurda,
Sobre a pele tão branca e macia.
O rosto lindo e pequeno, que cabe na palma de uma lembrança,
Ou na superfície líquida de uma canção inesperada
Que se insinua pelo labirinto da memória e sai à luz,
Exigindo a atenção intensa que subverte a lógica

De verdade, eu a vi ali, sobre a muralha de um castelo, sentada,
Cabelos ao vento,
Cantando uma canção mista de inglês e francês
(café expresso com leite e canela, forte e meio amargo).

Sua voz era tão doce que se misturou, sutil,
Às lembranças que acompanham o despertar.
Fiquei pensando ali, um sabor estranho e bom na boca,
Sobre a solidez e a necessidade dos sonhos deste tipo,
Que se impõem sobre a dureza do mundo cru
Deixando o dia mais bonito mesmo quando chove,
E, também, talvez por isso.

Eram lindas, a canção e a moça de rosto corado e boca vermelha.
Ela pulsava – e pulsa –, desacelerando a manhã, transformando a tarde
Em promessas que já nascem frustradas.

Um rosto que não conheço, a cabeleira rubra
Brilhando-ardendo ao vento do Sonhar.
Mas então, por que ainda me acompanha até essa hora?
Quem é você, moça, que veio comigo até agora
Flutuando sobre essa canção?

Sem motivo, enquanto escrevo, cantarolo a música
Sabendo que, às vezes, ter pouco é ter tudo o que há.

Hoje, o dia tem cabelos vermelhos
E olhos maliciosos de quem canta, em segredo,
Uma música só para mim.