Água na folha

Como a água escorre pela folha, gota cristalina, caminho quase invisível,
Eu me dobro a você, ponta, curva cedendo sob o peso suave
Da tua gravidade. E quando a luz do dia surge, amarela, branca,
Eu me dissolvo em cores que não conhecia.

Chame a isso de saudade, de tristeza vaga, seja o que for, é difuso,
É confuso, é focado em mim, ponto de calor: um furo, uma falha, uma fratura,
E eu me derramo e me esvaio num redemoinho sólido de silêncios mal dormidos,
Suspiros mal contidos, meias verdades sussurradas, surradas, cansadas

Eu durmo à noite e meu peito vazio te reclama, o lugar onde residias vago, obtuso;
Dou voltas e voltas ao redor de mim mesmo, planeta frio
navegando entre lençóis bagunçados. Eu me encolho e finjo te abraçar, mas
O vazio é frio, seco e indiferente.

Uma adaga de gelo bem entre minhas costelas, o vento uiva no telhado,
É agosto, sem fim, idade injusta que embranquece os cabelos e afina a pele.
Eu supunha que ficar sozinho era coisa que o tempo protegia, deixava a gente mais duro,
Mas não há negociação aqui, só perda, falta, a distância que esmaga e ri

Como a água que desaparece sob o sol, eu evaporo e sumo na tua lembrança.
Vagueio por aí: porta batida ao vento, dor exposta na janela, vidro de quadro partido
Espelho aos cacos, chão cortante, pedaços pequenos de uma dor fina e vermelha:
Quando vou te ver de novo, quando habitarás novamente meu abraço?

Fico me perguntando: quando brotarão tuas folhas em meu peito?
Quando arrebentarão tuas raízes no concreto do meu coração?
A água não escorre, a folha seca, não mais dobra: apenas quebra.
Esse é o nome secreto da saudade, da ausência surda que arde, tarde, aqui dentro…

 

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Madrugada

Madrugada, só eu e o silêncio rompendo a escuridão.
Diante da tela branca e do cursor que pisca
Sou dono de todo o universo que ainda inexiste,
Senhor do Vazio, Verdade absoluta,
Deus, criação, destruição.

Não há ninguém ali além de mim e meus demônios.
E eles falam (falam, falam) de coisas que eu não
Deveria
Queria
Ou teria coragem de enfrentar à luz do dia
E isso me espanta, espelho negro, água lodosa
Frio, profundo, escuro
Viagem sem volta.

Não sou dono de palavras difíceis, rimas fáceis,
Versos medidos, paralelos, belos, não.
Sou filho da madrugada
Onde os cachorros ladram
E as visagens cruzam as encruzilhadas
Num silêncio tenebroso.

Eu nada tenho além desse momento,
E os dias são uma jornada difícil pela luz.
Anseio pelo escuro,
Pelo silêncio, o abandono,
O descompromisso humilde do nada.

O rei está morto, viva o Rei.
Renego o sol, a imagem, a máscara
Eu sou o que nasce sozinho na madrugada
Despida de luz.

Não há chuva na cidade agora

Não há chuva na cidade agora.
Todos dormem enquanto a sufocante névoa
Se levanta, saindo dos bueiros, das bocas-de-lobo,
Enrodilhando-se nos pés dos postes,
Agarrando-se aos pneus velhos e cansados, esquecidos de si.

Não há esperança nos prédios, só concreto e vidro escuro.
Não há nada de brilhante nas lâmpadas
Que ardem como feridas na noite.
Há só um grande vazio, uma mancha cortante,
Uma promessa de perigo comum e tediosa
Que sangra segredos mudos.

Não há nada além de crueza e violência na cidade. Ela amanhece
E as poças escuras de indiferença emitem seu fedor
Como sempre fizeram. Os ônibus despertam, os carros passam,
E os fones entopem os ouvidos, as telas enchem os olhos.
Entre cafés da manhã e telejornais, na esquina,
A polícia espanca outro morador de rua.

Não há chuva na cidade agora. Vida segue.
É só mais um engarrafamento matinal.
Meninos vendem balas no sinal, eu digo “não, obrigado” ao flanelinha
Enquanto a mãe magra passa com sete meninos no chão e um no braço.
Eu odeio a metrópole, seus asfaltos, seus cruzamentos, cada pedaço
Que me lembra, todo dia, que a culpa disso tudo é minha também.

 

Rimando-te

Escrevi meu nome em tua pele,
Você se tatuou em minha alma.
Eu explodo feito estrela velha
E você nunca, nunca perde a calma.

Eu te chamo baixinho contra o vento
Busco na chuva rala o teu olhar.
Trago teu sorriso e o sentimento
Comigo sempre, a cada caminhar

Toda canção, toda canção me faz lembrar tua boca
O teu cabelo, teu cheiro, tua voz
Minha paixão já arde feito louca
E todo instante o “eu” quer virar “nós”

Esbarro, cego, em palavras fúteis
Que nada dizem da tua boca voraz
Tudo o que faço são gestos inúteis
Diante do que tua beleza traz

Eu sei que nada do que eu diga ou faça
Te satisfaz ou alivia teu sofrer
Minha paixão, porém, esta não passa
Pois que aliada ao meu tosco querer

Saiba, porém, que estarei contigo
Mesmo se as nuvens teimarem em não sumir
Dá-me tua mão, saiba, sou teu amigo
Não te abandono, não hei de partir

Se hoje esse castelo treme e balança
Se hoje parece não ser tão bom assim
Não te preocupes, não perca a esperança
Em breve resgatarei você pra mim

Sei que o poema não te faz justiça
E eu sou tolo por te amar até a morte
Mas minha mente quando te vê se atiça
E eu não ouso reclamar de minha sorte

Pois ter você é como nascer de novo
É sangue vivo, água em vinho, fogo e paz
Vida brotou num mundo outrora morto
Eis que ressurge, que se espalha, se refaz

Eu te agradeço por toda a beleza
As cores, os sabores, os temporais
Te agradeço por me mostrar a certeza
De que a vida sempre pode ser bem mais

E ainda que haja um fim, ainda que termine,
Nossa história não terá sido em vão
Pois é sabido que a musa de um poeta
Estará para sempre em seu coração…

Quem sabe um dia

André não estava bem, eu podia ver. Sentado no meio do grupo de amigos, ria, gesticulava, falava… mas era só  lado de fora. Seus olhos não mentiam.

A turma começou a se dispersar e ele ficou sozinho. Na verdade, estivera sozinho o tempo inteiro ali, fingindo que era parte daquela confusão.

– E aí, André? – falei, me aproximando.

– Oi, cara. Como você está?

– Eu tô bem, mas você não – eu disse, e ele arregalou os olhos. Ao mesmo tempo, ergueu os ombros e a cabeça, estufando o peito. Eu conhecia bem aquilo: era o modo bruto-não me importo.

– E o que faz você pensar que eu não estou bem? – perguntou, sério, fechado.

– Eu soube da Lia, cara.

André desmoronou. Baixou a cabeça, os ombros caíram, os lábios tremeram. Qualquer armadura que ele tivesse era pedaços agora.

André e Lia se conheceram no segundo ano. Ela namorava um cara bonitão do terceiro, e ele estava enrolado com uma menina linda do primeiro. A afinidade dos dois foi a música. Lembro bem, pois eu estava lá no dia em que se viram pela primeira vez.

Tocou Djavan no rádio da escola: “Outono”. Estavam a poucos metros um do outro, de costas, sem se ver.

– Eu amo essa música – disseram juntos, e se viraram ao mesmo tempo. Quando os olhares se encontraram, ambos ficaram vermelhos. E sorriram. André me disse, na época, que era a boca mais bonita que ele já vira.

– Não quero falar sobre isso, cara.

– Falar aju…

– Quer falar? Vai falar com ela, ok? Pergunta a ela se ela tá bem, porque eu sou um idiota do caralho!

– Que é isso, André? Para…

– Deixa eu terminar! Fui eu quem quis acabar, sabia? Porque eu sou estúpido, e fiquei pensando que aquele cara lá é melhor do que eu, e que vai dar a ela o que ela precisa! E ele é melhor do que eu, sim! Ele é gentil, educado, trata ela bem… o que ela teve comigo, além de sofrimento?

–  Mas, André, você não a ama?

– É claro que eu amo, droga! Mas eu…

Sentei do lado dele e passei a mão por seus ombros. Eu nunca tinha visto meu amigo chorar.

– Ela não queria terminar… – repetia baixinho André, entre soluços.

Abracei-o e disse que tudo iria ficar bem. Ele levantou e foi até o banheiro, lavar o rosto. Tinha essa mania de querer ser forte, mas era o mais fraco de todos.

Quando André saiu do banheiro, cruzou com Lia no corredor. Os impulsos de se abraçar foram contidos: ela ferida, ele sangrando. Eu podia ver o amor que tinham um pelo outro, condenado pela impossibilidade de acontecer por conta de uma decisão dura, precipitada e que não voltaria atrás.

Eles se separaram sem mal se falar. Pareciam dois estranhos. André voltou para onde eu estava.

– Eu só quero o melhor para ela – disse, e saiu andando. – Porque eu a amo.

Fiquei sentado ali, pensando neles dois, e em como eu torcera para que dessem certo. Eram lindos juntos, mas sempre houvera algo que os impedia de serem plenamente felizes. Um dia, talvez, eu descobrisse o que era.

Saí andando atrás do meu amigo, os cacos de seu coração batendo e fazendo barulho.

Quem sabe um dia eu consiguisse amar assim também…

Fronteiras

A gente se encontra pelas brechas
Abre frestas, foge das multidões
A gente troca palavras em silêncio
Enquanto conversa através de canções

A gente sabe as fronteiras, conhece o território
E eu não ignoro que diz o teu olhar
Trago comigo a lembrança dessas tardes
Enquanto sonho com tua mão a me tocar

A gente escapa pelas ruas paralelas
Enquanto o mundo flui a nosso redor
A gente tenta navegar contra a corrente
Mas a realidade só quer nos separar

A gente esconde os tesouros, deixa a vida para trás
Constrói castelos de nuvens em montanhas colossais
Percorre os dias num balé indefinível
Numa dança tão macia quanto quente e fugaz

Eu percebi a distância, pressenti o vazio
E usei a minha força para o teu nome chamar
Ignorei a escuridão e atravessei a noite escura
Com o único desejo de teu corpo abraçar

Quantos dias afastados, quantos passos tão mal dados
Nessa incômoda ausência em que me forço a estar
Não me importa o país, não me importa a fronteira
Eu pulo qualquer muro para teu rosto beijar

Quantos erros eu cometi quando te deixei fugir
Quantos sonhos enterrei quando soltei a tua mão
Estou perdido no mapa, sem rumo e sem sentido
Engolido pela crueza de uma triste solidão

Cruzei todas as linhas que podia, e as impossíveis,
Buscando por respostas que não sei onde encontrar
Eu não falo a língua desse país novo e estranho
Chamado despedida, vazio e não estar…

Escombros

Eu me lembro bem de todas as cidades que queimei por sua causa.
Não com raiva ou remorso, mas
Com uma saudade louca da chama e das brasas,
E uma tristeza inexata pelas cinzas e as marcas negras no chão.

Eu percorri teu corpo com ansiedade, como se retornasse;
Eu beijei teu pescoço com um desejo quente e úmido, e
Cada parte tua que eu tocava me respondia e nós, juntos,
Tocamos uma melodia que só ecoa, ecoa sem parar…

Eu me lembro de cada rua por onde passamos como um vento secreto.
Lembro de cada local onde, escondidos,
Transformamos nossa necessidade em um amor urgente e proibido.
Lembro das águas que, paradas, refletiam o céu,
E de cada gota de chuva que caiu pela janela, macia e gentil, sobre nós.

Eu me lembro do mar beijando nossos pés, e do amor insano que aconteceu
Na areia branca. E eu lembro de cada grão, cada palavra, gesto, toque e sabor.
E eu sei q
ue você sabe, meu amor, minha moça bonita,
Que meu sangue aprendeu teu nome e agora canta, canta
E não que mais se calar.

Então à noite, naquela hora em que tua voz me chegava, mansa e luminosa,
Eu me vejo falando sozinho, ou cantando – ou fazendo qualquer coisa
Para calar o vazio que veio morar no meu peito desde que você se foi -,
Mas o silêncio não cala tua ausência, nem o barulho, nem nada que eu faça.
Eu sigo na inércia de um desejo interrompido
Por acreditar que amor é deixar ir.

Eu me lembro de cada cidade que incendiamos juntos, meu amor. Cada rua, casa, apartamento, tudo o que ficou em nosso caminho.

O difícil, agora, é saber o que fazer
Com os escombros…

Don’t speak

Não havia necessidade de palavras entre nós, só a urgência
Temperada pelo desejo cristalino
E agudo como faca.

As mãos se atraíram, dedos, palmas, pele, poros
Mapeando um território desconhecido,
Decorando cada caminho, veia, linha.
Depois os braços diminuíram a distância
E transformaram o receio em um abraço quente e hesitante.

E não havia a necessidade de palavras entre nós, só os suspiros
E dois corações que batiam feito loucos. Só havia nós ali,
E em nossos nós havia um tecido, uma trama
Que só a gente podia ver.

Os cinco sentidos e seu império, minha boca na tua,
Cada linha, cada pequena parte de teu rosto,
Teu cheiro, teu cabelo, teu pescoço tão querido,
A pele, tão macia e quente:

Teu toque, meus caminhos.

Não havia necessidade de palavras, só eu
Te guardando em meu abraço.
A cada sinal vermelho um toque, um beijo,
O pôr-do-sol refletido na água, e nós dois ali, dois clandestinos
Cada vez mais perto do adeus.

Não havia necessidade de pedir, eu te pertenci.
Cada toque era fogo, eletricidade, vício,
Cada espaço meu era teu, e você parecia já saber
Meu itinerário. Como é possível?

Não houve necessidade de palavras, eu pude te provar,
Trazer comigo teu gosto, teu cheiro,
O prazer que me deste de presente.

Não diga nada, minha linda, nada.
Palavras não têm importância
Quando toco tua boca com a minha…

*Arte: Romeo and Juliet, por Sir Francis Dicksee

 

A canção do vento

Anda, amor, sussurra meu nome no vento
Como se fazia antes, no tempo das magias e encantos
Deixa-me cantar-te as canções antigas, versos meus
Exaltando-te a beleza morena, tua boca pequena,
Teus lábios de maçã

Sussurra meu nome na brisa, amada,
E eu sentirei teu perfume através dos dias
A distância terá gosto de mil especiarias
A espera das noites será muito menos fria
Se, como nos sonhos, eu puder te abraçar

Escuta os recados do vento, minha fada
Sente meus beijos mandados na melodia
A solidão não diminuiu meu ardor, meu amor
Ainda te devo minha alma e meu carinho
A saudade me faz voar pelo caminho

Me abrace quando eu chegar, amor
E deixa o vento carregar a tristeza
Pois em ti eu sacio minha sede
Em teu corpo acho meus caminhos
E tua voz é a única canção que desejo ouvir

Tua selva, teus segredos

Tua selva, teus segredos: território inexplorado
Em tuas fronteiras cruzo com o medo
De ser descoberto e, se atravessar,
Ser deportado
Para um país onde não haja tua presença,
Teu cheiro, tua boca, teu olhar.

Estrangeiro numa terra exótica, encanto-me
Com cada movimento, cada gesto, cada som,
Os aromas de terra quente, fértil, vicejante.
Visitante ilegal, passeio os dedos sobre as linhas
De teu mapa
Contrabandeando as especiarias de teu sorriso

Visto minha roupa de desejo e mergulho
Em teu rio caudaloso e profundo;
Aspiro o cheiro úmido e suave que se desprende
De teus cabelos;
Caminho, percorro, atravesso, escalo
As curvas de teu corpo: uma floresta, uma promessa,
Paisagem selvagem e pura

Tua selva, teus segredos,
E eu perdido
No meio de tua vastidão…