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O paradoxo da distância

 

Hoje choveu e eu lembrei de você.
Assim, do nada, tua falta começou a crescer
E eu me vi olhando para ti
Através das palavras que jamais te substituem, mas
Aliviam a saudade.

No chão frio, eu te senti
Enquanto o céu, que é grande
Cobria nossos caminhos.

E eu te agradeci
E te cobri de verdades
Tentando te ver sorrir.

De longe, te vejo crescer
Esperando o brilho que vai surgir
Quando a estrela se tornar um novo universo.

E eu poderei dizer: eu estava lá
No início
No meio
E no fim.

Pode crer, minha pequena ventania,
Que você me faz querer ser melhor.

Não precisamos de ninguém, eu e tu,
Mas podemos, sempre,
Escolher o jeito mais difícil.

Agora deixa chover
Que a água que correr
Vem para lavar o passado
E lavrar o futuro

Você mora aqui
Mesmo quando não está

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Estrelas Mortas

Meu céu contêm estrelas mortas
De uma luz que não pode mais voltar para casa.
Minha memória está recheada de funerais:
Pessoas normais que se foram e que,
Dada a regra insensata e cruel,
Não voltam mais.

A distância afeta o tempo, dobra-o
Em camadas grossas, frias:
Desacelera o sentir.
Não visto, não lembrado, dizem;
Eu apenas passo:
Janelas de ônibus, troca de mensagens.

“Quando der certo” – falamos,
Cruzando rápido os olhares,
Desconfortáveis com a cobrança surda.

Estranhos que um dia foram amigos,
De quem a vida, essa eterna sangria,
Não teve pena nenhuma…

Meu céu contém histórias mortas
De amigos que não podem mais
Voltar no tempo…

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Para um amor infinito, a eternidade

 

Por tuas mãos pequenas
e teu lindo rosto suave;
A pele morna e morena,
A boca formosa e pequena:

Poema.

Em teu perfil sagrado
O teu olhar, um enigma.
Entre nós, um segredo:
Em teu toque, um estigma.

Paradigma.

Solidão.

Acendi então um desejo
Fadado ao insucesso, prevejo.
Para um amor infinito, a eternidade –
Da lembrança, do desespero, da saudade…

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Valsinha

Vi sua letra
Seu número
Seu signo

Ouvi tua voz
Tua música
Teu suspiro

Toquei tua pele
Teu rosto
Teus lábios

Vi tua foto
Ouvi tua mensagem
Toquei a lembrança

E te deixei partir

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Meu Olhar

O meu olhar busca ansioso os fins de tarde
E suas nuvens coloridas de horizonte.
Vaga, incerto e brilhante,
Pelas margens de rios e estradas
Impiedoso, certeiro, egoísta e cruel
Vampiro de imagens e lembranças

Mas o meu olhar, esse monstro devorador
Que de tudo se encanta e apropria
Não dita em mim as regras do mundo.
Ele me entrega ilusões e convites vazios
Uma festa de egos e formas.
Mas jamais me preenche. Não.
Meu olhar são promessas natimortas.

As cores, os amores, tudo,
Tudo é vão. Nada o satisfaz, nada o segura, nada nunca o torna permanente.

Meu olhar é do movimento,
Do rodopio da folha,
Da sacola que voa
Do céu azul e laranja,
Da chuva, do rio e do redemoinho de poeira.
Meu olhar é do que se foi
E sempre será.

Meu olhar busca, ansioso,
Os fins

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O verde do Sertão

Das cores mais lindas do mundo
A mais bela é o verde do sertão.
É a única cor que adormece, marrom e cinza,
E desperta com o menor chuvisco,
Acendendo as beiras de estrada
Com promessas de uma vida
Que jamais se instala por inteiro.

O verde do sertão também pode ser cruel,
Alimentando esperanças
Forçando retornos
Enchendo açudes e rios com águas passageiras
Relembrando os caminhos batidos
De um passado não muito distante

No meio da poeira e do chão rachado
Um broto rompe a casca seca,
Bebendo a escassa chuva,
Revelando a promessa e
Lembrando que, no sertão,
O verde é a cor mais linda do mundo.

Porque nenhuma beleza é eterna
E tudo que verdeja está condenada a morrer.

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Carvão, fumaça e silêncio

Tua ausência foi se desenhando em mim assim, com o carvão da culpa
E a fumaça do arrependimento. Fui me lembrando de teu cheiro, de teus cabelos,
E me perdi numa manhã de praças matutinas e ruas semi-desertas:
Promessas silenciosas, coisas que não deveriam ter sido ditas
E um sol que, sem piedade, a tudo via.

Na linha de fogo, eu, você e as cartas que trocamos.
Meu amor por ti era puro e confuso como teus cabelos.
De repente, no espaço mínimo que se formou entre nossos olhos,
Perdi minha razão e quase te destruí. Fiquei com o sonho, você com a realidade.

Terminei inteiro, mas infeliz.

Havia um traço suave e grotesco cobrindo as formas naquela manhã.
Havia cores, mas estavam saturadas demais pela luz que a tudo cobria.
Rompemos o silêncio com abraços, e, depois, rompemos o abraço com silêncio.
Havia dor em teu olhar quando partimos, e eu, que nunca pude fazer nada, te deixei ir.

Jamais me dei inteiro para alguém depois daquele dia.
Nem mesmo para ti. Algo se partira em mim, algo vital, que me alimentava a poesia,
Que me enchia as noites de propósito.
Mas, entenda, a culpa nunca foi sua.

A culpa sempre foi daquele que idealizou, que criou, que encheu-se de esperanças tolas,
E que deu vazão a uma paixão que, desde o início, jamais deveria estar ali,
Por ser proibida e condenada a ser contida
Pelas frias palavras do tempo.

Carvão, fumaça e silêncio. O que restou daquelas promessas não ditas?
Perdemo-nos no caminho para não nos perdermos no fim.

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O barulho do meu silêncio

Mandar para mim mesmo uma mensagem
Arranhar os olhos com as verdades inesperadas
Atrevidas
Interromper o espelho em seu movimento de fascinação

Emudecer minha voz que fala, fala, e perceber:
Quem escuta, afinal? E por quê escuta tanto?
O que me assusta mais no vazio, esse buraco de irrealidade
Que me consome, mas não me preenche?

Dar-me conta de que nada é para sempre
Doer-me com a visão de que não há centro
Saber que eu não sou, e que não há eu, e que
Não se pode saber de coisa alguma

Abraçar o nada já foi mais reconfortante
Vestir-me de penas pavoneantes
Assumir uma postura cínica e autossuficiente
Permanecer solto no convés durante uma tempestade, e sorrir

Cansa. Cansa saber que não dá para saber.
O anseio por certezas ainda espalha suas raízes,
Ainda quero me sentir importante.
Narciso não morreu, mas mudou de nome e endereço.

Mesmo assim, não estenda sua mão para mim.
Você não percebeu que estamos todos caindo?
Você não percebeu o barulho que há em meu silêncio?
Você não vê o que eu vejo?

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Hoje eu vi a lua

Hoje, de maneira inesperada,
A lua brilhou para mim.
Ela tinha aqueles mesmos olhos de fim de tarde
E mil enigmas no sorriso.

Até a impaciência era a mesma,
Mas acrescida de uma beleza diferente,
Mais distante, mais ausente, mas não menos bela.

Pelo retrovisor eu pude vê-la, verdadeira,
Chama, brilho: maravilhas.
Juntos, compartilhamos segredos não ditos
E músicas doces e não planejadas.

Eu a vi parada, imponente e linda,
E só pude admirá-la.
E mesmo não estando a sós,
Ali estávamos só nós dois.
No instante seguinte, porém,
ela não estava mais lá.

Partido em dois, meio vazio e meio pleno,
Guardei a lembrança dela só pra mim
Enquanto a noite vinha, densa e silenciosa
Tomar todas as convicções do dia.

Ela não sabia,
Mas eu tinha certeza.
Não me surpreenderia se, em meus sonhos,
A lua viesse me visitar.
Em meus pensamentos, porém, ela vive e reina
Como o astro mais belo do céu.

Pelo retrovisor eu a vi partir
E eu só pude desejar
Vê-la mais uma vez.

Claude-Nicolas Ledoux - Teatro de Besançon

O Espelho da Verdade

Para onde vai o meu olhar
Castanho, ingênuo e cheio de cicatrizes?
Um sorriso, dois, três…
Um dia cansado, as noites intranquilas,
Sumindo apareço nas tardes febris
Cheio de surpresas doces e lábios desejosos.

Ontem te liguei, o medo na ponta da língua:
Com as mãos trêmulas ouvi tua voz e nada respondi.
Mudos, eu e o telefone, partimos
Antes que nossas esperanças se confundissem.

Não, não sei como voltar.
Teu calor é como um ímã, teu corpo me acorrenta;
Memórias cheias de lisonja me jogam em teu caminho, mas
Resisto, contra mim, resisto heroicamente
Estoicamente fujo da dádiva de ser feliz ao teu lado…

Para que deixar dois corações partidos, o meu e o teu?
Não há como explicar mil mistérios, ondas contra falésias,
Mariposas ao redor da chama de uma vela.

De todos os espelhos, o único que me encantou foi teu olhar
E eu, humano que sou, desta verdade fugi…

(Novembro de 2004)